domingo, 27 de abril de 2014

História de nossa política!


 

Na Assembleia Constituinte de 1947, composta de trinta e quatro deputados, a bancada do PSD era majoritária – vinte parlamentares, seguindo-se a UDN com doze e o PSP com dois.

Os advogados eram em número de treze: Djalma Marinho, Sílvio Pedroza, José Nicodemos, Israel Nunes, José Gonçalves de Medeiros, José Xavier da Cunha, Mário Negócio, Rodolfo Pereira, Arnaldo Simonet, Manoel Varela, Túlio Fernandes, Antônio Soares Filho e Claudionor de Andrade.

Os médicos viam em segundo lugar, em número de nove: Dix-Huit Rosado, Pereira de Macedo, Pedro Amorim, Abelardo Calafange, José Fernandes de Melo, Raul Alencar, Aderson Dutra, Ezequiel Fonseca e Creso Bezerra.

Empresários e proprietários rurais: Alfredo Mesquita, Aristóteles Fernandes, João Bianor, Alfredo Santana e Teodorico Bezerra, perfazendo um total de cinco. Um único dentista: Jofre Ariston. Apenas um jornalista: Walter Wanderley. Dois funcionários públicos: Cosme Lemos e Antônio Pereira Dias, um provisionado, Agostinho Santiago Brito. Um sacerdote: monsenhor João da Mata Paiva. O único estudante era o então jovem Moacir Torres Duarte.

Outra figura que integrou a bancada pessedista, naquela casa, era Teodorico Bezerra. Chegou juntamente com seu irmão, João Bianor, eleitos pela região do Trairí.

Teodorico viria a ser também o presidente do PSD, no Rio Grande do Norte, com a morte súbita do senador João Câmara. Proprietário rural e hoteleiro (era quem explorava o Grande Hotel que pertencia ao governo), construído na administração de Rafael Fernandes, quando era prefeito de Natal, o engenheiro Gentil Ferreira, seu primo e da mesma região.

Figura polêmica. Apesar das poucas letras, era sabido. Exercia a tradicional política clientelista e dominava o seu reduto que dava sempre votações consagradoras. Era majoritário política e eleitoralmente no município de Santa Cruz. Elegia dois sobrinhos: Aluízio Bezerra e Jácio Fiuza.

Teodorico tinha prestígio no Estado e na esfera federal, sobretudo, na cúpula pessedista, a poderosa cúpula que governou o país por muitos anos.

 

Os adversários acusavam-no de fazer fraudes nas votações e nos mapas eleitorais, conseguindo modificar os resultados das urnas. E por conta dessas estórias, verdadeiras ou não muitas delas entraram no folclore político brasileiro.

Contava ele com equipe especializada em fazer campanha, eleição e apuração. Eram verdadeiros mestre nessa arte difícil quando não existiam ainda os marqueteiros e os institutos de pesquisa. À frente do seu grupo estava a figura inteligente de José Bessa, competente articulador e promotor de eventos que reuniam correligionários, administradores e amigos do “majó” Teodorico.

Dizia-se, na época não era somente do lado de Teodorico, mas generalizado por todo o Estado, a importância da prática da “brejeira” que atemorizava as lideranças interioranas.

Djalma Marinho contou-me, no seu bom humor, entre um gole de uísque e uma baforada de cigarro americano, como nascera o nome de “brejeira”, expressão nativa, como sinônimo de fraude eleitoral.

Estava, Djalma, numa eleição em São José do Campestre e foi chamada às pressas para orientar o delegado do Partido num impasse que ocorrera na apuração da urna. Ao entrar no prédio da prefeitura, onde se realizava a contagem de votos, encontrou na entrada um matuto sentado num tamborete, fumando um cigarro brejeiro:

- Amigo o que houve aqui? Indagou preocupado.

E o matuto respondeu inteligentemente:

“Parece que foi uma Brejeira que fizeram por aí”.

A denominação colou e passou a ser usada pelos políticos e colunistas da grande imprensa, ganhando a boca do povo.

Inúmeras fraudes foram cometidas no Rio Grande do Norte, algumas comentadas, outras abafadas. Mas, as da região de Teodorico, nas votações proporcionais ganharam fama e enriqueceram o anedotário.

Diz-se que em Serra Caiada, hoje Eloi de Souza, reduto do promotor José Lins e de sua família, em certa eleição, a brejeirafora tão escandalosa que o voto do próprio Zé Lins não apareceu. E ele ironicamente protestava:

- Tá certo que minha mãe e meu pai tenham me traído; que minha noiva também, mas, eu que votei em mim...

O “majó” Teodorico era homem de gestos largos. Amigo dos seus correligionários. Protegia-os, prestava-lhes solidariedade nas horas difíceis. Daí sua liderança, sua força, seu domínio. Gastava dinheiro com as eleições, apoiando e elegendo muita gente.

Exerceu a partir de 1950, diversos mandatos federais. Foi vice governador em eleições direta, em 1962, conseguindo, através de emenda constitucional que a eleição do vice fosse feita pela Assembleia Legislativa. É que ele fora derrotado para o senado naquele ano e ficara sem mandato eletivo.

Era um homem prático. Dizia sempre que político sem mandato não valia coisa alguma. Só servia para uma coisa: Levar chá de cadeira nos Ministérios e nos gabinetes dos governadores estaduais.

Sempre o visitava, no Grande Hotel. Batíamos grandes papos e trocávamos ideias. Numa fase em que estava no ostracismo político. Os militares o perseguiram, chegaram a prendê-lo na Base Naval, a título de apurar denúncia de desvio de dinheiro público em instituições e cooperativas que ele criara e fundara. Queriam cassa-lo. Nada foi apurado e ele venceu todo essa batalha de perseguições e humilhações.

Anos depois, ainda em plena revolução, elegeu-se deputado federal e em seguida, deputado estadual – o seu último canto de cisne.

Perguntavam-lhe sempre: “Mas majó como é que o senhor ficou na Arena, partido da revolução que o prendeu”. E ele respondia com a sua costumeira matreirice: “Quem me prendeu não foi a Arena, foi o Exército”.

 

(*) Transcrito do livro: ANOTAÇÕES DO MEU CADERNO de autoria do jornalista TICIANO DUARTE.

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