sábado, 6 de outubro de 2012

ARTIGO

 
Por Ricardo Sobral
Zé da Viúva
Seu Ari Estrangeiro, como era conhecido, por suas inabaláveis convicções pacifistas, saiu das montanhas de seu país, então dominado pelos ingleses, para não ir para a guerra.
Mascateando, bateu no semi-árido nordestino. Gostou de uma morena, um verdadeiro “pedaço de mau caminho”, na expressão de Luiz Gonzaga. A mulher, décima segunda de uma prole de vinte e três, herdou uma tira de terra tão estreita que, se um jumento deitasse nela no sentido da largura, ficava com o rabo do lado de fora. Dava esbulho possessório.
Com trabalho e economia heróicos seu Ari comprou as partes dos demais herdeiros e também as terras dos vizinhos, constituindo um latifúndio onde se via rebanho de gado e miunças, além de plantações de algodão e milho a perder de vista.
Jactava-se de saber fazer economia em tudo. Suas frases prediletas eram: 1ª) sei fazer mais com menos; e, 2ª) o homem deve levantar-se da mesa ainda com vontade de comer. O carro popular na garagem, cobrado de segunda mão, servia apenas como enfeite, posto que só saia da fazenda aos domingos para ir a feira da cidade, para onde se dirigia saculejando em um trator com mais de trinta anos de uso. Não dispensava o pagamento da passagem sequer dos seus moradores.
A morena, antes alegre e fagueira, com o tempo ficou macambúzia. Embora na região fizesse um frio noturno de doer nos ossos, não era raro tomar banho gelado ali por volta das vinte e duas horas, quando Seu Ari já estava de ronco solto.
Nesse tempo, morava na região um moço chamado Mané Chabão, de olhar distante, pele pálida ao extremo, magro de ser empurrado pelo vento nordeste, rosto pontiagudo e que só tinha duas ocupações na vida: jogar sinuca no bar da esquina, no “expediente” da tarde, quando acordava depois que todos já tinham almoçado; e, à noite, freqüentar o caberá da cidade, onde era conhecido por Mané Gostoso.
Sua mãe, viúva do antigo coveiro da cidade, se lamentava.
- Meu Deus, onde foi que errei? Meu fio Manezin não vai dar pra nada nesse mundo. Ô cabra grande perdido.
As vizinhas procuraram confortá-la.
- Calma, comadre Domicina, o Manezin só tem trinta e sete anos. Ele ainda vai desarnar.
Um dia os sinos dobraram. Era um domingo de carnaval. Seu Ari Estrangeiro foi desatolar uma vaca no rio que havia pegado cheia. Finou-se afogado, abraçado com a vaca, que sobreviveu.
O tempo não pára e é o que há de mais perecível nesse mundo.
Um dia de muito sol, quebrando a pachorra do lugar, passa uma Land Rover em frente ao bar do sinuca.
Todos gritam: é Zé da Viúva.

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